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Proposta de percurso pedestre que de acordo com o relato do romance “A Cidade e as Serras”, tem início na Estação de Tormes (Aregos) prolongando-
DESCRIÇÃO DO CAMINHO
Na verdade, vindo de comboio ou tendo chegado de autocarro, não deixará de se erguer do seu banco e assomar às janelas para esperar com alvoroço a pequenina
Estação de Tormes, que lhe aparecerá clara e simples à beira do rio entre as rochas. Embora não vá encontrar os seus vistosos girassóis, nem as duas altas figueiras poderá observar, ainda, por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo, os painéis de mosaico com referência a momentos e temas estruturantes da obra de Eça “A Cidade e as Serras”, bem como o rio Douro, onde já não correm os rabelos carregados de sacrifícios e de vinho para o Porto, mas cruzeiros pressurosos com turistas curiosos das preciosidades durienses.
Observe em seu redor e, entre cogitações, confira que Eça tinha razão, esqueçam-
Caminhe com o devido cuidado junto da linha férrea acompanhando o rio para montante até encontrar um caminho que a atravessa e desce para a margem. Ao fundo está a Quinta da Tenchoadinha. Continue subindo até à estrada asfaltada que vem da Estação. Siga pela direita até atingir uma casa branca entre um canavial e, um pouco adiante, suba por um caminho empedrado. Não se exceda no esforço, para quando necessitar e aproveite para analisar a vegetação que o rodeia. No percurso vai encontrando carvalhos, oliveiras, choupos e, na beira do caminho, espargos bravos, cujos rebentos são muito apreciados cozinhados com ovos, entre outras propostas gastronómicas.
O primeiro edifício com ar senhorial que encontrará no interior de uma quinta em socalcos é a Casa da Capela. Um pouco mais adiante, à sua direita, vai avistar a Casa do Lodeiro. Por aqui abunda o pilriteiro, um arbusto que, na Primavera, dá flores
brancas, além de bagas vermelhas que são a delícia das aves. Esta casa encerra algumas memórias trágicas, pois pertenceu a um amigo de Camilo Castelo Branco, José Augusto Pinto de Magalhães, que raptou Fanny Owen, com quem casou. O casamento não se consumou e a senhora faleceu tísica cerca de um ano depois. Por decisão do marido, o seu coração, esteve guardado, muitos anos, num frasco de vidro na capela da Casa. Camilo refere-
Mas, afaste-
Quando atingir a estrada de alcatrão deparam-
não esquecer que o “Caminho de Jacinto” colheu inspiração nas veredas que Eça efectivamente subiu ou que as gentes de Vila Nova e arredores faziam para apanhar o comboio. Por isso, é um caminho de ficção, reinventado agora nas variantes da fonte de inspiração original. Pode dizer-
Se tomar a primeira opção, pare junto á Casa da Torre de Cabeção e observe a paisagem que se desenvolve pela vertente até ao fundo do vale onde corre o rio Douro. Em frente tem a igreja e o cemitério de Santa Cruz do Douro onde repousa Eça de Queiroz e, por entre os vinhedos, casais e quintas em socalcos ouça o silêncio retemperador. Sinta como o meu Príncipe mergulhava na Odisseia, -
no espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero! E como Ulisses meio adormecido, encantado, incessantemente – avistava longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante procurando Ítaca. Mas ... volte à realidade porque, para si, Ítaca é Tormes e tem de continuar a caminhar para lá chegar. Aprecie a amável aldeia e a água da pequena bica que vem lá de cima, de Queixomil, um lugar alcandorado por detrás de Tormes.
Está perante a última etapa. Tormes é já adiante, onde entrará pelas suas vinhas em socalcos. A casa emerge, pesada, por detrás dos jardins e da eira. Aproveite para repousar ou merendar junto de uma frondoso castanheiro, na pequena clareira
adornada por um tanque cuja água outrora matou a sede aos que por aqui passavam. Após retemperar as forças, não o espera o atabalhoado Melchior mas uma agradável visita à casa de Tormes, o lar da Fundação Eça de Queiroz e uma incursão na ambiência literária, intelectual e física de Eça que jamais esquecerá.
Neste santuário queirosiano vai dar razão a si e a Jacinto quando decidiram deixar o aconchego urbano e entrar na deliciosa e saudável ruralidade profunda que o espaço do romance e você próprio testemunham. Reconheça porque o seu outro eu, com gravidade, deixou desabafar sobre si esta declaração formidável: Zé Fernandes, vou partir para Tormes. Álea jacta est!
Citações in “A Cidade e as Serras”